O mercado de máquinas usadas no Brasil é grande e essencial para setores como construção, infraestrutura e agronegócio, mas ainda opera de forma precária e desorganizada. “Não existe hoje, no país, uma referência confiável de preços para máquinas usadas”, afirma Jonathan Pedro Butzke, Head da Operação de Máquinas da Auto Avaliar. Essa ausência gera variações de valores sem critérios claros, baseadas muitas vezes na percepção do vendedor.
Outro problema estrutural é a dificuldade de avaliar o estado real dos equipamentos, que podem passar por vários donos ao longo de décadas, perdendo seu histórico de uso e manutenção. “Ao contrário do setor automotivo, não existe um ‘Detran das máquinas’”, explica Butzke, ressaltando a falta de registros centralizados que permitam rastrear a vida útil dos ativos.
Essa falta de transparência cria um mercado altamente informal, com transações à vista e pouca padronização, dificultando até a emissão de notas fiscais. A consequência direta é o acesso restrito a crédito, pois instituições financeiras enfrentam dificuldades para financiar ativos sem histórico ou garantia clara. “Sem crédito, o mercado continua operando à vista; e operando à vista, permanece desorganizado”, destaca o especialista.
Apesar dos desafios, o mercado movimenta cifras bilionárias. Estima-se que cerca de 100 mil máquinas de linha amarela usadas sejam negociadas anualmente no Brasil, com um volume financeiro entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões. Incluindo o segmento agrícola, o valor pode chegar a R$ 30 bilhões por ano, embora esses números sejam apenas aproximações devido à falta de dados estruturados.
A digitalização surge como solução para modernizar e estruturar o setor, organizando informações, criando referências de preço e aumentando a transparência. “Não se trata apenas de levar anúncios para o ambiente online, mas de criar mecanismos de registro e padronizar informações para construir confiança”, afirma Butzke.
O desafio é ainda maior porque o mercado de máquinas usadas é global, com equipamentos frequentemente negociados entre países, especialmente na América Latina, onde a informalidade é maior. “A digitalização é o único caminho possível para transformar esse mercado em um ambiente estruturado, previsível e financiável”, conclui o especialista.
Organizar o mercado de máquinas usadas não significa apenas vender melhor, mas destravar crédito, aumentar liquidez e liberar bilhões de reais presos em um sistema que ainda opera no escuro, trazendo benefícios econômicos e operacionais para todo o setor.